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Crônicas de Claudia Houdelier
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Veja também a apresentação virtual do livro de Poesias Eu Mesma* da autora.

 

Crônicas

Topo da Pagina topo da páginaUm Dia Difícil pra Cachorro

Caprichei bastante no visual. Pronto: linda! Minissaia de couro, sandália de salto bem alto, camiseta aderente decotada, gargantilha extravagante, pulseira do conjunto combinando, brincão de argola dourado, cabelo lindo, castanho com reflexos avermelhados, lisinho batendo na cintura, lá fui eu para levar o namorado até o aeroporto internacional de Cumbica, em Guarulhos. Tarde esplêndida e logicamente não poderia faltar a companhia do nosso cachorro, um belíssimo terranova de apenas 11 meses que trouxemos da Itália no ano passado. Um maravilhoso exemplar da raça, de uma linhagem gigante, todo preto e de pelagem longa e lisa, que é atração por onde passa balançando seus nada menos que 80 quilos. Mais parecido com um urso do que com um cachorro exatamente, ele nos acompanha a restaurantes, leilões e onde mais for possível a sua presença. Nosso carro, uma marea turbo, ficou pequeno para ele. Aliás, tudo parece pequeno para ele. Só não trocamos por um veículo maior porque esse carro é blindado e São Paulo, infelizmente, virou terra de ninguém. Bem, lá fomos nós!

Antes de chegar ao aeroporto parei para abastecer o carro, como sempre faço, para a “alegria” do meu namorado que sempre diz, “ah, eu sabia!”... Mandei controlar a água e os pneus, como faço de praxe, porque como ali é longe de casa, nunca se sabe. Deixei então meu namorado no desembarque do terminal internacional e voltamos para São Paulo, eu e o meu “cãozinho” tranqüilos, tranqüilos. Peguei a Rodovia Airton Senna, a cento e vinte quilômetros por hora permitidos e quando entrei na marginal, reduzi. Olhei no painel para controlar se a velocidade era a permitida, quando percebi que a temperatura do carro estava marcando o máximo. Ponteiro todo para cima e indicação vermelha no painel. Pensei em parar no primeiro posto, mas como estou acostumada a fazer esse trajeto sabia muito bem que não seria fácil encontrar um e nesse mesmo momento o carro começou já a fazer um barulho estranho e a não responder bem na aceleração. Superei a favela logo à direita e procurei o primeiro acostamento, um daqueles pequenos bolsões que cabem uns três carros aproximadamente. Fui na “banguela”, pois o carro não acelerava mais nada nem pisando fundo. Apagou tudo, o motor não ligava mais e uma fumaça abundante começou a sair do capô.

E agora? Carro blindado, toda chique, melhor chamar o guincho pelo celular e ficar hermeticamente trancada lá dentro. Mas onde eu estava para dizer para o guincho? Marginal o quê? Aliás, não sei até hoje se é Pinheiros ou Tietê!!! Não tinha jeito, tinha que descer do carro! Caramba, que cheiro de carniça! Eu com o meu saltinho, meu óculos chanel e toda dondoca desci com todo cuidado para abrir a porta, dei a volta por trás do carro e andando do outro lado logo tropecei num saco plástico preto meio rasgado cheio de pedacinhos de algum animal morto! Coitadinho! Aliás, será que eram restos de um animal mesmo? Sei lá! Tinha mais um jogado no saco do outro lado, e outros pedacinhos fora do saco espalhados. Ái! Que coisa horrosa! Estiquei a cabeça e a minha situação era a seguinte: eu estava indo do aeroporto sentido centro, isto era claro. Do meu lado esquerdo estavam as pistas expressas da marginal (não sei qual) e o rio de ladinho. Para aquele lado não adiantava ir. Do lado direito um canteiro enorme com mato até o joelho cheio de quem sabe o quê. Melhor não arriscar entrar ali, e eu com a minha sandalinha aberta, não ia dar para encarar mesmo! Fora de cogitação. E mesmo que eu me arriscasse a fazer aquela aventura de atravessar esse jardim do éden selvagem ainda teria que atravessar mais as outras pistas para chegar do outro lado que aliás não tinha nada nem ninguém. Um detalhe: meu “cachorrinho” é super lento. Como é que eu iria conseguir atravessar correndo com ele? No colo não dava! Graças a Deus dava para ler o nome dessa “marginal da marginal” de onde eu estava apertando os olhos para ver o que estava escrito e então foi esse o endereço que dei porque era tudo o que eu consegui para servir de indicação da minha localização para a mocinha da seguradora, que me avisou que o tempo de espera para o resgate deveria ser de 30 a 40 minutos.

Voltei para o carro, avisei o namorado e telefonei para uma tia que mora em Higienópolis para dizer que eu não poderia mais ir a casa dela como havíamos combinado e relatei o que estava me acontecendo. Ela ficou nervosíssima e anotou onde eu estava e disse que iria ligar para a companhia de seguros mandando apressar o socorro. Não levei nem três minutos para fazer isso e já não dava mais para respirar lá dentro. São Paulo, janeiro, 34 graus, trancada dentro de um carro cozinhando no asfalto, parecia uma sauna. Aliás, como é que o guincho iria me ver se eu dei um endereço de uma avenida paralela àquela onde eu estava? Era melhor ficar fora do carro mesmo. Mas fora iriam me assaltar! Não tinha saída. Saí do carro, dei a volta de novo por trás, tirei meu cão pelo lado do acostamento e passei com ele tentando desviar do saco no chão, evitando que ele o cheirasse. Decidi não colocar triângulo nem nada que indicasse realmente qual era a minha situação porque assim ninguém saberia exatamente o que eu estava fazendo ali. E pensei:-“puxa vida, isso tinha que acontecer bem no sábado que é o dia que o meu cachorro vai ao veterinário de manhã para tomar banho, coisa que me custa 46 reais e duas horas de trabalho dos funcionários de lá! Aquela poerinha nojenta, o chão todo cheio de carcaças, cueca, calota, latinhas...”

Tranquei o carro e minha bolsa Salvatore Ferragamo (que trouxe quinta passada da Itália novinha dentro dele), o meu palm (que ainda estou aprendendo a usar) e meus documentos. Ainda bem que hoje resolvi usar só bijouterias, pensei! Coitado do meu batom, vai derreter todo nesse forno... paciência! Me afastei um pouco do carro e fiquei ali de pé, dura, como se nada estivesse acontecendo. Logo já começaram a buzinar e uma impressionante quantidade de carros começou a parar para me oferecer auxílio. Uma inacreditável solidariedade! -“Precisa de ajuda?”-“ Não, obrigada”. E eu não dizia nada mais do que isso, nem que o carro estava quebrado nem que eu estava esperando um guincho nem que alguém estava chegando em seguida nem nada. Coisa que alíás aprendi com o meu namorado, que diz que não se deve ficar explicando nada para ninguém. Santas palavras. Mas os carros que paravam quase em cima do meu pé e que não me perguntavam nada eram piores. Eu sentia até um friozinho na barriga mas continuava ali com uma fé inabalável no meu celular mantendo sempre alguém na linha. -“Bem, agora dois sujeitos chegaram num chevette, pararam atrás do meu carro e um deles desceu de shorts e atravessou a via expressa da marginal até o rio.”- eu ia relatando – “...atravessou... o outro ficou no carro... o que será que ele foi fazer do outro lado?”. Bem, esse aí ficou uns cinco minutos lá no rio me depois voltou para o carro. Depois que entrou no carro permaneceu ainda mais uns cinco minutos olhando para a minha cara e depois foi embora. -“Graças a Deus, foi embora!”- falei para a minha tia.

Durante todo o tempo de espera da chegada do guincho fiquei no celular. Quem sabe qual vai ser o tamanho da minha conta! Meu namorado, desesperado com a situação do cachorro, mandou um segurança de uma empresa de Belo Horizonte me ligar para ver se eu precisava de alguma coisa. Bem, de lá fica difícil me ajudar. Então esse mandou um que estava no mar, de férias, me ligar. Ah, aí já é mais perto! A tia ligava para a seguradora para ver se o guincho estava chegando, depois me ligava para perguntar se o guincho já tinha chegado, eu ligava para o namorado, ligações na espera, uma loucura! E o cachorro ali, meu lindo da mamãe, quietinho, deitadão naquele mar de pó do meu ladinho. Aí passou uma moto. Moto sempre passa, mas essa passou, parou e voltou na contra-mão: -“Precisa de alguma coisa?”, e respondi - “Não, muito obrigada” como sempre e continuei no telefone repetindo na minha memória a placa da moto para pronunciar no momento justo, se necessário. Em seguida o motoqueiro subiu o canteiro, virou a moto para a minha direção e ficou me olhando fixamente bem uns 4 minutos. Depois foi embora e deu tchauzinho. Eu só inclinei ligeiramente a cabeça em sinal afirmativo, sem grandes efusões. Pensei em chamar a polícia mas eu não sei se polícia vem para ficar fazendo companhia para moça sozinha de saia curta com carro quebrado e então deixei para lá. Passaram uns três DSVs, sempre do lado da pista de alta velocidade, e nenhum veio para perguntar se eu precisava de alguma coisa. Vai ver que era porque eu não coloquei o triângulo e não dava para saber se eu estava quebrada ou esperando alguém ou se parei para telefonar naquele oásis de paz, ou quem sabe, se desci para o cachorro fazer as necessidades, por que não? A única coisa que não dava para pensar é que eu realmente estivesse ali pedindo para ser assaltada ou seqüestrada. Mas o meu cachorro é tão absurdamente desproporcionalmente grande e quase ninguém conhece essa raça no Brasil, e não sendo conhecido, ele assusta pelo seu porte. Esta raça é profundamente sociável, ama crianças e outros animais e é usada para salvamento em água na Europa. O meu, em especial, convive com os nossos três gatos. Então, não precisa nem dizer o quanto ele não é bravo e agressivo! Aliás, ele tem aulas de educação duas vezes por semana desde os quatro meses para que se desenvolva o mais dócil possível porque detesto cachorro bravo, tendo tido a infeliz experiência de ter tido um. Bem, mas naquele caso ninguém sabia de nada nem que ele é assim bonzinho, não? Isso contava a meu favor. Era só não chegar perto, porque senão ele abanava o rabo e pronto: estava frita.

Neste momento estaciona um Del Rey velho, caindo os pedaços, quase em cima do meu pé. Eu não me mexo. Continuo naturalmente falando no celular. Fica lá bem uns 10 minutos, até que resolve e sai do carro se aproximando, quando então meu cachorro levanta como uma fera e dá uma latida na direção do homem que faz vibrar toda a marginal. O homem pára, deixa os braços abertos, fica imóvel, movimenta só os lábios e pergunta: -“Precisa de alguma coisa?”, -“Não, obrigada”. O cachorro continua parado em posição de alerta e me olha de rabo de olho, como quem deseja saber o que fazer, se aquele sujeito é amigo ou se a ordem é para ficar com cara de cão de guarda. Eu não mudo a minha expressão.-“O cachorro é bravo?”, pergunta o moço, descalço e de bermudinha, olhos vermelhos que só vendo -“Melhor não chegar perto”, respondo, e continuo a minha “deliciosa” conversa no celular. Nessa hora serviu ter feito minha faculdade de Psicologia. Resposta breve e mais nada. Ele decide entrar no carro e vai embora. Aproveitei e beijei meu cachorro de cima em baixo, coçando ele todinho e dizendo:- ‘Bravo, Nero! Bravo, Nero!”, repetia, que em italiano significa, isso mesmo, bonzinho!

O tempo ia passando e cada vez mais a espera me pesava. Meus pés estavam ficando profundamente inchados no meu saltinho e minhas unhas pintadinhas de vermelho cada vez mais sujinhas de poeira. Não dava para ficar descalça ali porque o asfalto estava quentíssimo e imundo. Cada vez mais folhinhas grudadas no pelo do meu cão e eu ia delicadamente tirando uma a uma.

Bem, pára agora uma família, marido na direção, talvez o pai dele na frente (um senhor de meia-idade), atrás a esposa com um bebê. -“Precisa de ajuda?”- “Não, obrigada!”. Esquisito, pensei. Uma família inteira para ajudar num lugar que você não sabe quem é o bandido: quem está parado ou quem pára! Aliás, eu gostaria de me desculpar aqui se duvidei da boa vontade de alguém. É meu pai que diz que não existe ninguém “bonzinho” no mundo. Eu, pra falar a verdade, acredito na bondade. Só que naquele caso, em alguns casos eu estava desconfiando de tudo mesmo. Aliás, sou mineirinha e já viu!

O calor estava insuportável e o Nero apresentava a respiração cada vez mais ofegante. Eu não tinha nada para dar para ele beber. Daqui a pouco chega o guincho, pensei. Mas como demora uma coisa quando a gente precisa tanto! Estaciona então um táxi. É, vai ver que ele acha que eu posso querer ir de táxi! Só que naquele eu não iria entrar nem amarrada. Se eu tivesse que ir de táxi chamaria um radio táxi porque não confio. Bem, no telefone com aquele segurança amigo do meu namorado que estava na praia falei, “putz, agora um táxi parou aqui quase em cima do meu pé! Ái, chegou o meu guincho! Só que lá do outro lado no endereço que eu dei! Caramba! Passou, virou e não me viu! Eu pulava, gritava, agitava as mãos e nada, eu estava bem no ponto cego dele. Impossível atravessar, como eu já disse. Mas um anjo, anjo mesmo, passou ali naquele momento. Eu gritava e ele fazia sinal de que não dava para ouvir o que eu estava morrendo de berrar. Lógico, ele estava a quase uns quinhentos metros de mim! Mímica, lógico! Mímica funciona sempre. Isso foi a mamãe que me ensinou. Aliás, ela é poliglota em mímica. Ela sabe a mímica francesa, americana, italiana, espanhola e seja o que for. E funcionou! Eu então joguei um monte de beijos para esse anônimo que me fazia o sinal de jóia com o dedão polegar e o guincho começou a girar e me viu fazendo o sinal que iria procurar um retorno para conseguir acessar o local onde eu estava. Usando mímica, também, língua universal. “Nero, estamos salvos!”, falei. Liguei para todo mundo e todo mundo ligava para mim. Ótimo. Quase acabado!

Chega o guincho. Desce um anjo bom com água fresca e lanchinho. Me pergunta o que houve e eu vou explicando que o carro esquentou e parou. Oferece mais água para o cachorro, mais água para mim (que continuo dando só um golinho de nada) e o táxi lá, imóvel. O guincho não consegue espaço para manobrar e o cara do táxi lá, atrapalhando o meu resgate. O cara do guincho então faz um sinal com a cabeça para mim e resolve empurrar sozinho o meu carro no sol por cima daquelas carcaças frescas e ensaguentadas sem falar no quanto o meu veículo pesa por conta da blindagem. O taxista desce. -“Precisa de ajuda?”. Desta vez foi o rapaz do guincho a responder: -“Não, obrigada. Aliás, nos ajudaria muito se o senhor pudesse puxar o seu carro para frente...”-”O meu carro está com problema”, respondeu o taxista. Problema que misteriosamente se resolveu dois minutos depois e ele arrancou e foi embora.

-“Bem”, falou o rapaz do guincho, “primeiro a senhora toma água e o seu cachorro também porque vocês estão aqui há muito tempo e depois nós partimos. Eu dava a água para o cachorro e ele falava para eu tomar também e eu não tomava até que resolvi confessar para ele baixinho que era melhor eu não tomar muita porque eu já tinha saído de casa há muito tempo e tinha ido até o aeroporto sem nem descer do carro e que depois aconteceu tudo isso e que eu fiquei lá esperando todo esse tempo e que ainda faltava muito para a gente chegar e que eu tinha certeza de que iria me dar um vontade enorme de fazer xixi. Ele falou que não tinha problema e que depois ele dava um jeito nisso e parava em um posto. Eu então enchi a cara de água, pois estava morta de sede! O Nero bebeu uns oito copos de água Santa Bárbara, aliás, empresa de um amigo meu, que conhece o meu o cachorro, e pensei, que engraçado ser logo a água dele, depois tenho que ligar para contar essa para ele!

Agora estava tudo tranqüilo. O rapaz começou a preparar o carro para subir no guincho e eu fiquei ali parada quando adivinha quem chega? O rapaz da moto! Lembram dele? Estaciona entre o guincho e o meu carro, se vira e pega uma sacola grandona atrás e a coloca no colo. Começa a abrir o zíper da sacola enquanto o rapaz do guincho gira a cabeça para trás só para ver quem é que estava quase grudado nele e levanta os olhos em minha direção. Não sei como consegui fazer um sinal com o olhar para que ele viesse imediatamente em minha direção. Então o Sr. Nilton da Porto Seguro Seguros se aproximou fingindo que iria pegar algo no caminhão. Sussurrei baixinho: -“É a segunda vez que esse cara pára aqui”. Eu estava gelada. Nisso o rapaz da moto resolveu colocar os óculos escuros que estavam na sacola, ligou a moto e partiu sem dar tchauzinho. Então o rapaz do guincho voltou para trás para engatar o carro no mecanismo que o faria subir. Pensei: -“Puxa, prático, não? Você pega um retorno, anda 10 minutos, passa para o outro lado da marginal, anda mais 10 minutos, pega outro retorno e então volta para um acostamento simpático com cheiro de carniça que você estava há pouco tempo atrás só para colocar os seus óculos...” Não sei até agora o que o moço da moto iria realmente tirar da sacola quando o rapaz do guincho se afastou dele. Nem quero saber! Vai ver que eram os óculos mesmo...Ufa! Enfim sós! -“Perigosa essa marginal, não?”, falei. -“Nem te conto”, comentou o rapaz do socorro. Um colega de profissão veio remover um veículo de uma senhora exatamente neste ponto. Ele não percebeu e chegou quando ela estava sendo assaltada. Quando ele estacionou os bandidos começaram a dar vários tiros no guincho! Não feriu ninguém, mas já viu, né?”. Só balancei a cabeça como quem diz, “é...”. Confortante, não? Quem sabe com a gente seria diferente, pensei.

-“Só tem que ver como vamos fazer com o cachorro, senhora. Tem algum problema ele ir no carro atrás com as janelas abertas o suficiente para entrar ar e a senhora ir comigo na frente no caminhão?

“- Puxa, moço, o senhor não se incomoda se eu for atrás com ele?”. Ele então me explicou que isso não era permitido por lei e que neste caso iríamos colocá-lo na frente, conosco. Eu só deveria ter que prometer de tomar cuidado para que ele não o atrapalhasse enquanto dirigia. –“Ok!”, respondi, me esquecendo de um detalhe: a escada do caminhão é alta e não dava pé para o cachorro. Aliás, o cachorro não queria subir nem a pau! Eu descia para ajudar a levantá-lo mas ele não queria entrar porque eu não estava lá em cima. Eu subia no caminhão e o moço embaixo não tinha força suficiente para sozinho dar o impulso necessário para que o cachorro subisse... difícil! -“Vai, mais uma vez!...Moço, eu estou de shortinho por baixo, tá?” Depois de umas cinco tentativas de sobe e desce contínuo: -“Nada! Não quer subir.” E nesse ponto o cachorrro começava a fazer “burro”, sentando no chão e colocando o peso todo ao contrário do nosso movimento de impulsioná-lo para que não conseguíssemos que ele se movesse. Descendente provavelmente dos molossóides do Tibet, esta raça atravessou a Sibéria e o Alaska, se encontrando com a raça de cães dos vickings. Esse encontro gerou um cão de características físicas e comportamentais bem distintas que se mantiveram no tempo. Esses cães em torno ao ano 1000 se estabeleceram na Ilha de Terranova, habitada por algumas tribos. Devido ao seu olfato acuradíssimo eles eram capazes de “sentir” a presença da terra mesmo a dezenas de quilômetros de distância, guiando as embarcações com latidos mesmo em meio a uma neblina fortíssima. Além do que eram capazes de transportar à terra a âncora lançada do barco, permitindo o atraque mesmo em condições de águas profundamente agitadas. Levando em consideração esse sua enorme capacidade de tração, realmente o nosso Nero podia se dar ao luxo de escolher se entrar ou não dentro do caminhão. Ele resolveu resistir e nós nos rendemos à sua resistência. –“Olha, eu vou ter que abrir uma exceção para a senhora ir atrás. A companhia vai entender.” E lá foi o Sr. Nilton abaixar o mecanismo do guincho para que a rampa ficasse a uns quarenta e cinco graus de inclinação propiciando que eu e o cão pudéssemos subir. -“Mais água?”- perguntou. E bebi mais. E o Nero bebeu mais também. -“Bem, de água chega. Vamos lá.”, eu disse. Me dirigi para a ponta da rampa e com muita dificuldade conseguimos fazer com que o cachorro subisse nos poucos centímetros de espaço que restavam entre o carro amarrado e a base metálica da estrutura. Para falar a verdade, precisaria de um guincho só para o colocar o cachorro porque ele pesa quase uma tonelada! Pronto, conseguimos! Entrei também, meio que escorregando e me sentei no banco da frente. Coloquei o cinto de segurança e expliquei o caminho: - “vamos pegar a 23 de maio e entrar no túnel do Airton Senna...” (olha ele aí denovo! Grande, grande Airton, que como ninguém representou o nosso país! Saudades!) . Lá fomos nós. Coloquei o cinto e segurança e enquanto isso ia dando mais água para o cão. O carro estava muito quente e os vidros traseiros por questão de segurança não descem, só os dianteiros abaixam ligeiramente e restrito a alguns poucos centímetros. Bem, faltava pouco. Liga o namorado: -“Tudo bem com o Nero? O Marcelo ligou? O Hamilton ligou? Estou embarcando...”- ele disse. –“Vai tranqüilo, meu amor. Agora já está tudo bem. Um beijo.”, respondi desligando.

De repente, cinco minutos depois e já paramos. Desce o moço do caminhão, eu abro a porta do carro e olho para ele lá embaixo e ele e me diz: -“Dona Claudia, eu acho que posto de gasolina é muito sujo. Essa é uma ótima churrascaria. É muito limpa, de luxo, elegante mesmo. Se a senhora quiser ir ao banheiro aqui eu desço o carro para a senhora...” – “Ái, Sr.Nilton, eu não quero incomodar, o senhor já teve uma paciência tão grande comigo...” – “É o meu trabalho, sou pago para isso, e enquanto eu estiver com a senhora estou trabalhando, não? Vou abaixar”. Inclinou a rampa em 45 graus e ficou ali dando o bracinho para eu descer, um gentleman! Enquanto isso uma família saindo tarde do almoço me olha como se fosse eu estivesse descendo de um disco voador que chegou do espaço naquele momento. Pulei uma muretinha, não ficou muito fino, mas cortava um caminho enorme, de novo me fazendo ajudar do braço do Sr. Nilton, e atravessei o longo percurso que me levava até a entrada da churrascaria. Ele ficou lá, tomando conta do meu “pequeno”, que ocupa toda a parte traseira do meu carro. -“Boa tarde”, falei para o recepcionista da churrascaria. -“Você nunca viu nenhuma cliente chegar assim aqui, já viu?”.- “Não, nunca.”- me respondeu com um sorrisinho. -“Posso usar o seu toalete um minuto?”-“Lógico, é por aqui”, me disse apontando a direção. Que ótimo, pensei, aproveitei e dei uma limpadinha nos meus dedinhos do pé que ficaram empoeirados, lembra? Retoquei o batom e já estava pronta para voltar para a minha carruagem. Antes de sair encontrei aquele tradicional pote cheio de balinhas e perguntei se podia pegar algumas. Enchi as duas mãos de balas e voltei toda contente para o guincho: -“Olha o que eu trouxe para o senhor!” – “Obrigada!”, ele disse. -“Não, obrigada o senhor por toda essa preocupação. Bem, agora vamos”. Novamente ele me ajudou com o braço, todo preocupado para eu não escorregar com o meu saltinho e me machucar. Sobe de novo o carro na horizontal, aparece na lateral, eu abro a porta e olho para baixo: “Mais água?”- me pergunta. Santa Bárbara, sempre! Aliás, seria bom acender uma velinha para ela, sabe? Vou fazer isso. E descobrir quem era essa santinha.

Chegando quase ao destino final ele parou e de novo baixou a plataforma e deu o bracinho para eu descer. Subiu o carro, com o Nero sozinho desta vez, mas por uns poucos minutos e então montei na parte da frente do caminhão para dar as últimas indicações. Caminhão bonito, sabe? Decidimos levar primeiro o cão para a minha casa e depois deixarmos o carro num estacionamento próximo onde na segunda-feira outro guincho iria levá-lo para o mecânico, porque era sábado e a oficina mecânica já estava fechada. Bem, descer foi mais fácil. Pra descer todo santo ajuda! Mas que foi um dia difícil para cachorro ninguém tem dúvida disso, nem ele.

São Paulo, 2005.

 

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Tudo organizado para irmos para Poços de Caldas, cidade onde nasci. Aliás, quando se começa a pensar nas coisas que já se fez e o quanto isso vai ficando distante no tempo, se começa a envelhecer. Tenho 38 anos, o que não é pouco, mas isso ainda não me preocupa. Bem, o motivo dessa viagem é visitar a minha outra avó, Mary Alice, que desde dezembro do ano passado reside em uma clínica para idosos, a Agnus Dei.

Com seus noventa e dois anos, gastos com profunda criatividade, a vovó demonstra uma capacidade inigualável de adaptação. Já teve de tudo, já perdeu tudo o que teve. Antes dessa sua última mudança, vivia numa casinha alugada, que ela mesma chamava de “muquifinho”. Toda colorida com cortininhas que ela mesma costurou e uma coleção de fotos da família que ela fazia questão de mostrar, especialmente a do vovô Clovis, o amor da sua vida. Ela vivia modesta e dignamente, como se diz. E trabalhava! Era voluntária em uma casa de repouso para velhinhos, onde fazia massagens como fisioterapeuta e aplicava nos seus clientes uma pomada mágica que ela mesma fabricava com umas ervas especiais. Aliás, nos últimos tempos, fazia fila na portinha da casa dela atrás do “verdinho”, nome que ela batizou esse seu remédio milagroso que tinha clara intenção de patentear.

E a Dona Alice se virava sozinha, independente na sua vidinha, orgulhosa disso, mesmo no fundo não sendo bem assim. Mas tudo nela foi ficando mais frágil, mais devagar, mais cansado. Coraçãozinho que não agüentava mais caminhar muito, respiração ofegante. Andar até a esquina, nem pensar, longe demais.

E outras coisas foram ficando esquecidas, aliás, até se esquecia se já tinha comido ou se ainda não. E a solidão, solidão também conta. Amigos, pessoas da família, outras visitinhas... mas cada um tem a sua vida, e às vezes ela também ficava ali meio esquecida, por que não? E esquecia disso, esquecia daquilo... Então vieram as crises de pneumonia, disso, daquilo. E ela quase foi dessa para outra. Mas ela agüentou firme. E então a decisão difícil, que não foi dela, e lá foi ela.

Chego de surpresa, e encontro aquela casa com o telhado em “v”, escada de ardósia, piscina do lado direito, tudo cuidado, limpinho. Uma sala de visitas com muitos sofás espalhados, parede de tijolinho à vista, tudo aconchegante. Uma senhora acaricia um cachorrinho de pelúcia, uma outra fica olhando pela janela. Peço licença e me identifico para uma das enfermeiras e vou entrando.

Logo no primeiro quarto à esquerda, dividindo o quarto com outras duas senhoras, encontro a vovó deitada, bracinhos cruzados na altura do estômago. Me sento na cama dela, e para não assustar sussurro em baixo tom de voz: - “Vó...” e ela abre aqueles olhos de um azul indescritível, devagar, como tudo nela agora. – “Sou eu, vó, a Claudia, sua neta, filha do Roberto e da Dedé.- “Oi, filhinha, que surpresa!” – “Olha, vó, acabei de chegar de São Paulo, vim para cá só para te ver. Que bom ver que você está bem!” e ela me diz que ali todos a tratam muito bem e que ela não tem do que reclamar e que desde que foi para lá para fazer este tratamento que ela se sente muito melhor, mas que logo ela vai voltar para casa. Ela não sabe, mas ela não tem mais casa. Tudo dela está ali, como tudo o que sobrou dela.

Talvez seja um presente não se entender bem algumas coisas. – “Que dia é hoje?” ela me pergunta. – “Terça, vó.” – “Sabe, às vezes não consigo lembrar que dia é hoje... eu queria que você passasse lá na Caixa Econômica para ver como está a minha conta. Eu às vezes vou até lá a pé. Mas como não tenho ido não quero que as pessoas lá pensem que me esqueci delas. Você me entende, não? Você pode passar lá para dizer que mandei um beijo. Um beijo não, um beijão a todos...”- “Vó, não se preocupe, ninguém pensa que você esqueceu deles. Nem eles se esqueceram de você. E quanto a que dia é hoje, que diferença faz?”, digo a ela. Aproxima-se uma outra senhora que não diz coisa com coisa e a vovó sussurra no meu ouvido: - “Não liga não, ela é enxerida, muito enxerida...” Eu só digo, “é...é...” E mal consigo entender. Ficamos conversando bastante, e quando dou notícia dos filhos do meu irmão ela me diz, - “Puxa, eu não os vejo desde que nasceram”. Eu a corrijo e digo a ela que não, que ela não os vê a menos tempo e que logo eles irão visitá-la de novo, provavelmente agora no carnaval. –“Claudinha, me diga uma coisa, eu tenho uma residência? Estou um pouco confusa, não consigo me lembrar aonde eu moro...” Respondo que no momento ela mora ali e ela logo me diz que não é para sempre porque depois ela precisa voltar para a casa dela porque o Roberto, filho dela, disse que ela tem uma casa azul mas que ela não sabe bem onde fica. – “A minha casa é azul? Você sabe onde é?”, me pergunta. Combino então com a enfermeira para as quatro da tarde do dia seguinte, e peço para ela colocar o fraldão e deixar a vovó bem bonitinha com batom na boca.

No outro dia lá estou eu, pontual. Vou em companhia da minha outra avó Glorinha, pessoa maravilhosa, toda uma historia para se contar a respeito dela uma outra vez, e a empregada dela, a Jupira. Somos atendidas por um rapaz com deficiência que nos recebe calorosamente e nos diz para entrarmos e nos repete “Vai com Deus, vai com Deus...fica com Deus...” com uma difícil dicção. Entro e lá está a Vovó Alice, toda comportada, com uma roupa que obviamente ela mesma fez há tempos atrás, exímia costureira que era, sentadinha, esperando. Assim que abri a porta e ela viu que eu estava indo na direção dela ela foi se levantando e dizendo: - “Estou aqui pronta para sair com o primeiro que chega. Não sabia bem quem era que disse que vinha me buscar...estou sem bolsa, mas também não tenho que levar nada mesmo”. Com uma camisa azul e branca que combina com ela e o medalhão de prata que ela não desgruda, notei o acréscimo de um crucifixo de madeira que mandei para ela quando ela estava hospitalizada. – “Puxa, vó, fico contente que você esteja usando o crucifixo que te dei. Ele foi bento na Basílica de São Marco em Veneza quando estive lá com o Clovis, meu irmão, especialmente para você.”- “Eu sempre uso. E o Clovis, como está? Há tanto tempo que não o vejo!”. E lá fomos nós, com muito cuidado com a escada, isso sem falar na outra avó querida, a Glorinha, que também requer certos cuidados porque infelizmente está com problemas de visão. Descemos devagar, com a ajuda do rapaz que repetia - “Vai com Deus, vai com Deus, fica com Deus, vai com Deus”. E dizíamos para ele ficar com Deus e ele dizia -“Vai com Deus, vai com Deus...” Fomos.

Ao entrarmos no carro as lembranças dos tempos que a vovó Alice morou no Rio foram voltando e ela me disse, que ali mesmo ela caminhava de tarde. Que era gostoso ver o mar. Engraçado como tudo se embaralha e então tudo se ameniza nessa confusão que às vezes é também dor. Era doloroso para ela não saber que dia era hoje, mas era agradável recordar que o mar era ali. Ali onde nunca foi. E me repetia: “Imagina, eu te vi pequenininha, te carreguei no colo! Você é aquela sua boneca comprida...” Boneca que não me lembro, mas que ela sabe que foi minha. Lembranças minhas de coisas que talvez eu fosse pequena demais para me lembrar, ou quem sabe, lembranças dela, só dela, que são doces e a fazem sorrir.

Girando pela cidade ela vai comentando toda feliz: “Aqui eu fazia aula de balé... engraçado, eu morei aqui.. a minha casa era bem ali... eu conheço esse lugar...engraçado, parece que eu conheço esse lugar... parece que eu já estive aqui...” Tantas e tantas coisas que nem sei a respeito da vida dela! Quem sabe o curso de balé existia ali, por que não? Quanto às casas dela, realmente foram tantas! Lembranças, tantas, e de tal maneira fortemente misturadas que mesmo havendo sentido elas se perdiam emaranhadas.

Paramos então na frente da loja da Ângela, uma de suas filhas. Buzino e vem todos correndo lá de dentro para cumprimentá-la: os netos Gustavo e Ainã e a bisneta Roberta, que alíás é mãe do Lucas, o seu trisneto! Ela cumprimenta todos e diz para a filha que a loja dela é linda e que ela não sabia que a loja era ali, que ela pensava que a loja era em outra rua. Diz com um sorriso lindo estampado no rosto que a filha merece tudo de bom porque lutou muito para ter isso. A filha agradece e me diz que quando eu voltar à clínica devo dizer às enfermeiras de pingar um colírio nos olhos da vovó. –“Deus te abençoe, filha.” – “Benção, mãe, benção.”

Estacionamos bem em frente ao Café do Ponto, o local onde resolvemos tomar um lanchinho. Descendo do carro ela se lamenta novamente de ter saído sem bolsa. – “Vó, quer que a gente compre uma bolsa para você? Precisa de alguma coisa? Um sapatinho novo?”- “Não, nada. O meu está até com a sola nova, olha!”

Leio todo o cardápio, mil guloseimas mineiras de dar água na boca, e ela escolhe milk shake de chocolate e pão de mel para acompanhar. A vovó Glorinha diz que não pode, que é para dizer para ela escolher outra coisa que isso vai fazer mal. Pergunto se ela acha que realmente deve pedir isso e ela repete o seu desejo, dizendo ser movida a chocolate. Como negar? Espero que dê tudo certo. Dou uma limpadinha na secreção dos olhos dela com o guardanapo e chega o pedido. A pupila aumenta e por um momento aqueles olhos apertadinhosde de um profundo azul ficam negros. O canudo não dobrava e o copo era alto demais. Pedi à garçonete um canudo que dobrasse e resolvemos a questão. Ela tomou tudo e chupou fundo que até engasgou. E quando isto aconteceu quase morremos nós três de preocupação. A vovó Glorinha me olhou feio e disse, - “tá vendo? Eu falei que ia fazer mal!” – “Passou, é que eu suguei ar e engasguei. Passou.”- falou a vovó Alice com o rosto profundamente vermelho. – “Eu e a Kátia e Karen já estivemos exatamente aqui uma vez...” – “E como as meninas estão, vó? “- “Estão ótimas. Elas gostam muito de mim, sabe?”- “Lógico, vó, não poderia ser diferente. Você as criou. Elas são como se fossem suas filhas.”- “Elas são minhas filhas”. Conversamos bastante, demos notícias a ela das pessoas que acreditávamos que ela compreendesse quem fossem e ela gostou, gostou de tudo. Principalmente do milk shake que estava ótimo, como ela mesma fez questão de dizer.

Chegando à clínica fomos novamente recebidas pelo rapaz do “Vai com Deus, vai com Deus, fica com Deus...” Devolvemos então a vovó e combinamos de nos ver no dia seguinte no mesmo horário. Combinei também com a enfermeira de prepará-la..

O dia seguinte amanheceu chovendo muito. Às 10 da manhã liguei para avisar que eu iria visitá-la no horário combinado mas que não sairíamos. Fui sozinha. Ninguém quis ir comigo. Chegando lá fui recebida pelo “Fica com Deus...vai com Deus”, subi as escadas e pensei na dificuldade que ela teve ontem para subi-las e olhando o jardim e a piscina pensei que talvez nem isso ela apreciasse muitas vezes. Hoje tudo ali era diferente, talvez porque a idéia não fosse sair dali, mas permanecer lá. Hoje eu sentia o cheiro de urina que ontem não tinha, e via a senhora com o cachorrinho de pelúcia com um olhar de eternidade. Ela acariciava aquele cachorro o tempo todo e não olhava para mais nada. Fixamente o tocava enquanto a enfermeira a alimentava na boca com colher. Aquela outra de ontem estava ali parada na janela. E o tempo foi ficando igual, como se ali todos os dias fossem iguais. As enfermeiras de branco, meigas e boazinhas, iguais. Todas iguais. Eu não via diferença em mais nada. Me sentei com a vovó na cama e resolvi mostrar meu palm para ela, explicar de mim, dos meus trabalhos em mosaico. As fotos estavam armazenadas ali e eu ia mostrando para ela que comentava excitada os meus trabalhos. Estranho, faço isso já há tanto tempo e só agora fui mostrar para que ela me desse uma opinião. – “Puxa, que moderno!”, ela dizia toda empolgada. – “Ele faz foto também, vó. Quer que eu tire uma?” E ela quis. Em novembro do ano passado, quando ela ainda entendia bem melhor as coisas, num almoço na casa da vovó Glorinha, eu pensei em fazer isso para ter uma recordação, mas fiquei com o meu segredo.

Tiramos muitas fotos e comentamos uma a uma no visor. Essa isso... aquela aquilo, enquanto a enfermeira trocava a senhora da cama ao lado. Como se nada acontecesse a nosso redor. Decidimos não apagar nenhuma. A que ela mais gostou foi uma que tiramos juntas de rosto grudado que dava uma "impressão de aconchego”, como ela mesma quis definir. Ela adorou e mostramos para a enfermeira e assim tiramos com a enfermeira e depois apareceram as outras e tiramos com todas. Prometi revelar e mandar cópias para ela e para as moças. Ela disse que queria ampliar e colocar num porta-retrato. Tudo o que ela tem agora é o para-peito da janela e um pedaço de um armário embutido, que ela pregou um papel com os dizeres manuscritos: “Propriedade Particular”, bem dela. Me dei conta disso quando me aproximei do armário para ajudar as enfermeiras a encontrar a bolsa que ela queria. – “Eu tenho muitas bolsas, mas elas estão em casa...”, dizia. Precisa ver que felicidade quando as enfermeiras encontraram a bolsa e ela reconheceu. Tão poucas coisas! E ela olha para a máquina de costura dela que colocaram para decorar o quarto onde ela está e diz que têm tantos projetos. Repete que ali cuidam bem dela e que se ela tem vontade de comer alguma coisa basta que ela diga e eles no dia seguinte preparam para ela. Falando assim fica mais fácil para todo mundo aceitar o que ela parece aceitar com tanta naturalidade. E os momentos de lucidez se mesclam magicamente produzindo um efeito anestésico. E eu me sinto melhor de ver o que ela vê todos os dias, tudo igual. A janela por onde ela olha, o sofá onde ela assiste televisão, a banheira onde ela se lava, as orquídeas no beiral do vitrô colorido, ganham um sabor de familiaridade. E eu me acostumo àqueles poucos instantes como se então eu entendesse o que é a vida dela agora. Mas eu me sinto triste, profundamente triste em ver o quanto ela aceita. Nenhuma revolta, nenhum senão, nenhuma exigência. Só uma vontade enorme dela de que eu fique mais, um pouco mais. Difícil ouvir tudo o que ela me deseja: tudo de bom nesse mundo, me abençoando. Seguramente ela me conhece. E repete às enfermeiras: - “Eu a carreguei no colo, sabe?...” Pelo menos tudo aquilo que ela estava vivendo ali comigo naquele momento fazia sentido, e era bom. Vamos à cozinha, cheiro de café, ela aceita uma xícara. Meus olhos estão cheios de água e não quero que ela veja que estou emocionada. O telefone toca e era o papai para ela. – “Filho, quanto tempo....!” – fazia meia hora que eu mesma havia feito uma ligação para que ela falasse com ele porque ela havia me pedido... conversam bastante, carinhosamente, passa então para a mamãe, mais palavras carinhosas e então ela me dá o telefone. Eu não estava mais me agüentando e não consegui dizer nada. A mamãe entendeu que eu estava chorando e disse: "espera aí, seu pai vai falar...”- ”Já vai passar, pai. Fica tranqüilo que ela nem percebeu porque estou de costas... é que é duro...na hora de me despedir dela ela começou a falar um monte de coisas... é como falar com alguém que você não sabe se foi a última vez... não segurei!”. – “Eu sei, filha, estou vivendo essa sensação desde dezembro. Mas ela está tão alegre com a sua visita...” E a cozinheira ia jogando o macarrão na sopa enquanto a enfermeira me dava um guardanapo para que eu me recompusesse. A vovó toda prosa ia tomando o café e eu ia tentando me refazer para então me virar para ela. Respirei fundo e senti o cheiro gostoso de todos os aromas do caldinho da sopa que inebriavam todo o local. – “Pena que você não vai ficar para o jantar”, falou a vovó. – “Pena mesmo, vó.”, respondi. E a vida continua.

São Paulo, 2005.

 

Topo da Pagina topo da páginaDe Fora para Dentro

“Tudo começa no ventre materno”… com certeza, a nossa história começa aqui. Uma história de uma cumplicidade inevitavelmente profunda: eu sou o espaço onde você por enquanto habita, se desenvolve, cresce e faz as suas primeiras descobertas. Quanta responsabilidade em cada passo que dou nesse período em que você é uma frágil extensão de mim!

Pena que a barriga não seja transparente! Acaricio o meu ventre e a minha mão toca o seu corpo cegamente. Imagino a sua posição e a cada movimento seu não posso fazer outra coisa que exibir um leve sorriso. Nesses nossos encontros é como se você pronunciasse as suas primeiras palavras, que nesses momentos se materializam em gestos curtos e divertidos. Uma criança! Cabeça...braços, mãozinhas, pernas, pezinhos e um coração que se agita! Às vezes nem acredito nesse milagre todo acontecendo aqui dentro de mim!

A maternidade! Me preparo para a sua chegada que desde já mudou completamente a minha vida. Com essa sua presença é como se eu não fosse mais um ser individual. Agora eu sou dois. Minha existência ganha um sentido de continuidade. Você compartilha dos meus sentimentos, das minhas emoções e sensações. Estamos juntos nesse alongamento de mim que se personifica na sua figura que lentamente define seus contornos. Seu rosto, sua boca, seu estilo pessoal que desabrocha. Imagino como você é, seus olhos se abrindo, a sua voz, a cor dos seus cabelos...

Dentro do meu útero você está seguro e protegido. Estou aqui pronta para enfrentar qualquer ameaça que se apresente a você. Talvez por isso você durma assim tranqüilo. Mas já demonstra as suas preferências e as suas vontades, você já se manifesta. Temos a nossa linguagem e compartilhamos cada momento mágico nesse canal que nos liga em constante comunicação.

Você se mexe, e eu acaricio o espaço onde você exprimiu o seu movimento; eu me alimento e depois de alguns minutos é como se tudo o que ingeri chegasse a você e então você demonstrasse seu prazer e se deliciasse em pequenos movimentos.

A batida do meu coração soa como uma música que ofereço para que você perceba as minhas emoções. Tento me repousar para que você desfrute de grande serenidade. É através do meu corpo que se amolda para que você se encaixe que mostro o meu estado emocional e afetivo, que se reflete à sua compreensão. Impossível não estabelecer um relacionamento quase que visceral com você, quando tudo por enquanto é exatamente isso. Provém de mim os elementos que propiciam o seu crescimento físico e depois irei responsavelmente tentar fornecer os elementos que propiciarão o se desenvolvimento como pessoa: dar o meu melhor para você. Por enquanto espero você a cada dia para daqui a algumas semanas te dar a vida.

Inseparáveis por enquanto, vivemos maravilhosamente unidos por um cordão que proximamente será rompido para que você realmente exista como ser único e individual. Se aproxima o momento em que realmente iremos nos tocar e nos conhecer, com o tempo. Se trata de uma espera composta de um misto de expectativa e surpresa, mas também de tranqüilidade. Desde já você é o que você é e que eu ainda não sei e irei descobrir. Aproveito pacientemente cada segundo que compartilhamos.

A sensação de que você provém de mim se transforma num amor indescritível e inquantificavel, absoluto diante da materialização da vida que se evidencia tão naturalmente aqui dentro de mim. Você cresce amado, desejado, esperado, coberto de amor. É como se externamente ao meu ventre já existisse uma atmosfera como a que você está mergulhado: uma outra bolha, menos hermética e mais ampla que servirá de meio para o seu aprendizado verdadeiro da vida. E eu vou estar lá, esperando por você, também do lado de fora.

À sua espera também está o seu adorável pai e as pessoas que farão parte da sua família, na esperança de contribuir com o seu desenvolvimento. Estamos todos nós à sua espera e à espera de fazer parte de cada passo da sua vida. Preparamos com cuidado tudo o que circunda a sua chegada. Seu bercinho foi pensado com carinho, assim como o carrinho que nos ajudará a transportar você. Suas primeiras roupinhas... seu primeiro sapatinho... Tudo feito com amor pelas pessoas que desde já amam você profundamente.

Venha com tranqüilidade quando a sua hora de vir a esse mundo chegar. Estou aqui com você por dentro de mim para em breve restar a seu lado. Obrigada pelo sentido que a sua vida deu à minha.

Todo o amor,
da sua mãe.

Nice, 11 de agosto de 2006 (para Alexandre Houdelier, meu filho único).

 

Topo da Pagina topo da páginaPelo Amor de Deus

Fazia uns dois anos que ia, regularmente, à missa, a todas terças-feiras, pela manhã. Este desejo de um encontro espiritual nasceu de uma curiosidade sobre uma atitude de minha querida avó, Glorinha, de ir à missa, pelo menos uma vez por semana. Sempre lhe perguntava o que via de bom naquilo. Eu ria, dizendo-lhe ser uma “chatice” ouvir o padre. Por outro lado, mal compreendia suas palavras e isto me dava um sono danado. Pouco me importava o padre, a igreja e a missa. Sempre achava tudo desinteressante, pra não dizer um “saco”. Cada vez que perguntava sobre isso, respondia-me, sorrindo, com um longo silêncio. Sábia, sabia dar respostas...

As coisas mudaram. Hoje, pensando nela, preparei-me para seguir seu hábito. Pela manhã, servi o café ao meu filho, deixei-o na escola, caminho da igreja, e lá fui eu para assistir à missa.

Encontrei uma amiga, na porta da escola. Ela avisou-me que sua mãe, Caroline, me aguardava, logo abaixo, para seguirmos juntas até a capela.

Chegando perto da companheira, sussurrei, baixinho, no seu ouvido, que precisava dar uma paradinha em algum lugar, pois não aguentava de vontade de ir ao banheiro.

Corri, à sua frente, esperançosa de achar o consultório de meu fisioterapeuta aberto, pois lá havia uma toalete limpinha. Infelizmente, a porta ainda estava fechada. Fui direto para a capela, tentando resolver meu problema, no banheirinho lá existente. Este ficava do seu lado esquerdo, no hall da entrada.

Caroline começava subir a ladeirinha que dava na igreja. Gritei para esperar-me. Ao alcançá-la, desculpei-me, dizendo-lhe o porquê de meu atraso.

Que surpresa! Ao abrir a porta, deparei-me, no hall da entrada, com o pároco, sua cachorra labradora e seu assistente. Gentilmente, fazia um gesto com os braços para entrarmos em primeiro lugar. Agora sim, estava perdida! Como ir ao banheiro com todos aguardando aquela entrada triunfal!

A igreja era pequena. Poucos fiéis participavam da missa matinal. Quando havia muitos, não ultrapassavam de vinte pessoas. A cerimônia sempre nos emocionava. Nosso capelão, de origem polonesa, tinha quarenta e sete anos apenas. Formado em Filosofia e Psicologia, seus sermões eram profundos, a tal ponto que ficava refletindo sobre suas palavras quase a semana inteira. Há seis anos veio da Polônia para nossa pequena cidade, com apenas dois mil habitantes, localizada ao sul da França. Arrependia-me por não ter participado das missas, perdendo suas sábias mensagens, pois ficaria, por aqui, só mais um ano. Tinha espernaça de que meu filho fizesse a “Primeira Comunhão” com ele. Inclusive, para minha alegria, foi ele quem realizou meu casamento. Tornou-se nosso amigo e,às vezes, até almoçava conosco. Tocava violão, apreciava um vinhozinho, tinha um excelente humor e andava pra cima e pra baixo com sua cachorra Bonna. Bonna já conheceu até nossa gata, Nicole, numa bênção aos animais.

Naquele dia, passei a mão na cabecinha de Bonna, deitada no hall, com aqueles ollhos compridos, aguardando a missa terminar. Tentava distrair-me para esquecer de que estava tão necessitada.

A igreja estava repleta. Até um seminarista coreano, aliás, um docinho, estava por lá, distribuindo os panfletos com as letras das músicas a serem cantadas.

Era a “Semana Santa”, o capelão com sua elegante veste roxa, com apliques dourados, o assistente, portando uma estola da mesma cor, e o apoio de madeira, suporte da Bíblia, forrado por um tecido arroxeado.

O seminarista, com um traje branco-azulado, as mãos em prece, levantou-se juntamente com os fiéis, anunciando a entrada do sacerdote e seu assistente. Ao mesmo tempo, os cânticos ecoavam  pelos ares...

Baixinho, disse à Caroline que não foi possível ir à toalete. Tentei distrair o pensamento, prestando atenção na cerimônia: no sermão tão repleto de reflexões de nosso capelão e nas preces cantadas pelo seu assistente.

Antes da comunhão, observei o assistente cochichar algo no ouvido do sacerdote, o qual  fez um sinal positivo com a cabeça. Vai saber o que disse! Virei-me para o lado e, com a sobrancelha, fiz um jeito de interrogação para minha amiga.

Nesse momento, o assistente saiu,  por detrás do altar, trazendo uma taça de vinho. O pároco carregava as hóstias, convidando os fiéis para a comunhão.

Fizemos uma fila com muito respeito. E lá fomos nós, recolhidos em nossa fé, receber a sagrada comunhão.

Tarde demais, quando percebi o que acontecia e descobri o que foi dito no ouvido do padre. A hóstia seria oferecida pelo sacerdote, o qual diria, “O Corpo de Cristo. Amém”, e, ao mesmo tempo, seria colocada na boca dos participantes. Em seguida, todos deveriam tomar um gole do vinho da taça, portada pelo assistente, que falaria, “O Sangue de Cristo. Amém”.

Imaginem a situação: o pároco bebeu no cálice e passou um paninho, o assistente, o seminarista, vários fiéis repetiram a mesma  cena. Vendo isso, minha amiga e eu planejamos uma estratégia, tentando agir com esperteza. Combinamos de só molhar a hóstia no vinho.

Credo! Adorava o padre, meu amiguinho. Mas, durante a missa, tossiu sem parar. E eu, que sou por natureza nojenta, como passar por essa? Nunca bebi em copo de ninguém; nem tomava água na mesma garrafinha de meu marido; vivia falando ao meu filho para não beber no mesmo copo de outra pessoa, pois isto daria sapinho, herpes, gastroenterite...`As vezes, até me virava o estômago a comida de minha sogra, porque experimentava o alimento com a mesma colher que estava mexendo na panela. Ora, ora, depois de lamber bem, enfiava a colher babada, de novo, na panela. Eu, heim! Cruzes!!!

E toda aquela gente, que nem sei se tinha higiene, fazendo aquilo?

O assistente continuava limpando o cálice com o mesmo paninho branco, que estava ficando marrom.

Puxa, se eu tivesse seguido meu instinto de ir ao banheiro, antes da comunhão, teria escapado dessa...

Vamos ao plano: peguei a hóstia, molhei no  vinho, quando o assistente fez “não” com a cabeça, em seguida, entornou a taça dentro de minha boca. O que fazer? Engoli seco... ainda, por cima, um gole de vinho forte às oito e meia da manhã! Já pensou?

Nem conseguia rezar direito e, rapidinho,fiz a conta de quantos beberam antes de mim. Disse, no ouvido de Carolina, “pelo menos só havia cinco na minha frente”.

Não aguentava de vontade rir, nem olhava para os lados, pois seria pior. Como não me concentrava nas preces, passei a observar a feição de cada um ao beber na mesma taça de não sei quantos...

Finalmente, chegou a última da fila para comungar. Coitada... a última, já imaginou quantos foram antes dela? Será que ainda havia vinho na taça?

A senhora pegou a hóstia, colocou na  boca e foi firme para a taça. O assistente ajudou-a a virar o resto de vinho em sua boca.

De repente, ela cuspiu algo, grudado em sua boca. Francamente, um nojo, parecia uma nata. Mas o assistente tranquilizou-a, dizendo: ”é o Corpo de Cristo”, e, delicadamente, empurrou com o dedo essa hóstia molhada, novamente, em sua boca.

Impressionante! Fiquei pensando no que os apóstolos passaram na “Última Ceia” e como é difícil compartilhar com os outros esse momento de comunhão.

Jamais havia visto isto em minha vida. Procurei me informar, parecia-me que, em outros lugares, procediam da mesma forma, durante a semana que antecedia a Páscoa.

No ano que vem, vou sentar-me lá no fundo, e, antes de pegar a fila da comunhão, vou observar o comportamento de cada um.

Deus que me perdoe! Até passou a vontade de ir ao banheiro.

Fiquei pensando o que a vovó iria achar desta história. Sabem? Escrevi este conto para ela...

Nice, março 2013.

 

Topo da Pagina topo da páginaGraças a Deus

Eu e Deus temos tido muitas histórias para contar ultimamente... Histórias que a minha vó deve estar rindo lá do céu, pertinho dele. Hoje acordei cedo para ir à missa, deixei meu filhinho na porta da escola e fui para a minha missa de terça-feira de manhã, com tanto para agradecer.

Parece que desse jeito vou ter que escrever uma "saga"... pois é. Cheguei cedo demais, nem quis ficar esperando a minha amiga Caroline, de tão cedo que era. Não era o meu padre queridinho que daria a missa hoje, percebi ogo que entrei na igreja que hoje seria o vigário que gosta de cantar que rezaria a missa, aquele que teve a idéia de fazer todo mundo beber o mesmo vinho no mesmo cálice na páscoa e que quando a última senhora da fila cuspiu a óstia ele colocou denovo aquela coisa babada dentro na boca dela. É a primeira vez que o vejo desde aquele imemorável episódio que Deus me livre.

Acendi uma velinha de um euro e peguei a programação das missas de julho. Me sentei e comecei a ler, quando percebi que não peguei apenas uma programação mensal, mas todas elas, porque elas estavam inseridas uma dentro das outras. Distribuí-as então para os fiéis que obviamente não puderam pegar o panfleto e recoloquei o que sobrou de volta na mesinha da entrada da capela. Foi então que chegou a Caroline, contente de me ver, e se sentou ao meu lado, como sempre. Quando ela viu que era o padre Luca, que substituía o nosso padre habitual hoje, ela foi logo me dizendo sussurando no meu ouvido: "se tiver que beber no mesmo copo eu não bebo". Eu disse: "eu também não!", e até revelei o meu plano: se na hora da comunhão ele inventasse de nos fazer beber denovo no mesmo cálice, colocaríamos as mãos nos ombros com os braços cruzados para recebermos apenas uma benção e não a comunhão, e acrescentei que desse jeito nós duas acabaríamos queimando no inferno.

A leitura foi curta e o sermão mais curto ainda. O padre estava vestido de verde com detalhes dourados, combinando com ambiente. Ele acabou o discurso e se sentou na cadeira ao lado do altar, jogando para trás da cadeira a grande capa esvoaçante que vestia. Depois ele se levantou e aquela capa voltou deslizando e acompanhando o movimento dele, trazendo uma corrente de vento. Logo veio a benção do pão e do vinho, quando então o pároco olhou curiosamente para dentro do cálice, acariciou a borda e delicadamente enfiou o dedo indicador lá dentro na tentativa de retirar alguma coisa que aparentemente não saiu. Ele recobriu o cálice, eu olhei de canto de olho para a minha amiga e ele continuou o ritual.

Chegou o momento da missa em que o padre comunga e ele, todo envolto de espiritualidade, pegou o cálice e enfiou o dedão discretamente denovo lá dentro. Ele não fez cara de nada, nem de nojo nem de desgosto, nem de intranquilidade. Ficou aquela dúvida, seria um cabelo, um pêlo, uma poeira... ou nada... será que ele conseguiu ou não tirar o troço lá de dentro? Eu olhei para a minha amiga de canto de olho, ela olhou para mim, não aguentamos, caímos na risada. Eu não podia nem olhar para o lado dela que já me dava uma vontade incontrolável de rir. Ái, minha vó iria ficar danada comigo. Tentei me concentrar.

O padre então bebeu todo o conteúdo do cálice num gole só, dava pra ver que não sobrou nehuma gotinha e foi para a frente do altar sem ele, apenas com as óstias bem contadinhas distribuídas no pratinho para nos dar a comunhão. "Graças a Deus!", pensei. Mas também pensei no sacrifício que o coitado deve ter feito para beber todo o vinho com aquele objeto não identificado, nos poupando hoje do sangue de Cristo, vai saber por qual motivo.

A minha amiga foi se avançando na fila e eu a acompanhei logo atrás. Dei a minha rezadinha mas não posso mentir, estava louca de curiosidade para saber do que se tratava aquele mistério todo, e em vez de orar fiquei levantando hipóteses no meu pensamento do que é que tinha ido parar lá dentro do cálice sagrado. Seguramente este enigma ficaria sem resposta, que pena!

A missa foi acabando, o padre Luca foi se preparando para fazer as recomendações habituais e anúncios finais. Anunciou que iria para um encontro de jovens no Rio de Janeiro e que recebeu o resultado do seu mestrado em teologia e que poderíamos escolher de nos referirmos a ele como padre, vigário ou mestre. Rezamos todos a Ave Maria olhando para a linda imagem em madeira que fica no canto esquerdo da capela. Ele nos abençoou e então, para o meu esturpor acrescentou do nada, enquanto caminhava com as mãos ainda unidas em oração, que seria bom cobrir o cálice antes das celebrações porque hoje um inseto inadvertidamente caiu lá dentro. Que revelação! Gente do céu, ir na missa aqui na França é uma caixinha de surpresas.

Nice, julho 2013.

 

Topo da Pagina topo da páginaDeus que me Perdoe

Passei um ano particularmente apertada com as minhas finanças, porque num golpe de insana vaidade resolvi gastar todas as minhas economias aproveitando uma promoção maravilhosa de botas e chapéis de luxo. Pensei que consegueria recolocar meus gastos excedentes na conta num prazo de três meses, e como lição de vida, tudo foi acontecendo como uma bola de neve e até hoje estou na pendura. Mas como se diz, veio a luz no fim do túnel, e meu apartamento que demorou seis meses para ser alugado, finalmente conseguiu uma ficha aprovada para um inquilino nota dez. Isso eu tinha que agradecer a Deus rapidinho!

Era sábado e eu estava em Nice, a caminho da escola de inglês onde eu deveria encontrar meu filho e meu marido às onze e meia da manhã, para a festinha de fim-de-ano. Foi aí que aconteceu um momento mágico. Quando eu estava passando bem em frente do meu restaurante japonês favorito, escuto os sinos da catedral, que fica na outra avenida, tocarem forte, cada vez mais intensos, como se fosse um convite. Como eram ainda onze horas, e eu pensei de passar em alguma igreja de qualquer jeito, porque queria dar a minha rezadinha, esta era a ocasião perfeita.

Nunca entrei nesta igreja, que tem uma imponente fachada com duas torres laterais e uma rosácea ao centro, porque ela está sempre fechada ou em reparação quando passo por lá. Se trata da Basilique Notre Dame de l'Assomption, um monumento emblemático que data de 1860. Fazem quase quase oito anos que tento ir lá, mas tudo o que vejo são os mendigos com os seus cachorros que ficam sentados nas escadas em frente à basílica. Mas hoje o meu dia prometia ser diferente. Acompanhei esse "chamado". Os sinos tocavam forte e quanto mais eu me aproximava, mais eles etonavam fortes e vivos, quase ensurdecedores. Eu fui andando, dando as minhas passadas rápidas e determinadas, e as pombinhas foram se afastando em um vôo acelerado para que eu pudesse passar: uma atmosfera envolvente onde reinava um silêncio absoluto que dava lugar apenas para os sinos que ressoavam potentes.

Cheguei na porta da catedral e então vi uma mercedes bens linda estacionada na calçada em frente dela, cheia de flores no capô. "Ichi!!! Seria um enterro?" - pensei. Não, ainda bem. Um passo a mais e deu pra ver uns jovens lindos e bem vestidos na porta com um punhado de pétalas nas mãos esperando a saída dos noivos. Fiquei esperando também para ver se eles combinavam com o carro e com o ambiente. Constatei que o noivo era gordinho, alto e careca, muito bem vestido. A noiva dava a metade dele, nada de especial, como se diz por aqui, nem carne nem peixe. Pareciam apaixonados, deram um beijinho tímido e foram recobertos de pétalas de rosas coloridas que caíam como confetis de carnaval. Dei uma voltinha passando por trás do carro estacionado e aproveitei para entrar nesta igreja secreta e inacessível até o momento para mim.

Não tinha quase mais ninguém na igreja. O casamento tinha acabado e pelo visto não tinha muita gente. "Igreja grande é difícil de encher para casamento", diz sempre a mamãe, "melhor igreja pequena que enche fácil, fica feio ver os bancos vazios, parece que os convidados não vieram". Bem, se eles vieram ou não, eu não sei, mas que o cortejo acabou rápido, com certeza. Deveriam ter umas trinta pessoas ao todo, e elas já tinham evaporado. As flores estavam sendo retiradas e o silêncio envolvia o meu pensamento. Agradeci, agradeci forte mesmo. Que alívio poder contar novamente com o meu precioso aluguel! Me coloquei de joelhos, rezei a ave-maria, o pai-nosso e o credo. Mas ficou faltando acender a velinha que prometi de acender. Eu poderia fazer isso na terça-feira, na minha igrejinha.

Fui saindo da igreja e quando faço o meu sinal da cruz no meio do corredor vejo na mesinha onde ficam os panfletos uma velinha. Que tentação! Vai ver que alguém esqueceu ou desistiu de acender. Nossa, roubar vela na igreja não deve ser coisa muito boa de se fazer: "Deus tá vendo!" Mas a minha vontade de agradecer era tanta que não resisti ao impulso vendo aquela velinha ali dando sopa. Peguei-a discretamente, como se mesmo Deus pudesse não estar me vendo naquele momento, e fui lá apressada para acender. Quando queimei o fósforo e ela se iluminou, olhei para a imagem do santo, não sei qual, que estava no altar. Ele pareceu que me olhou feio. Fiquei tão arrependida! Mas tarde demais. Prometi de trazer o dinheiro em dobro para corrigir o meu erro, ou seja dois euros, o mais rápido possível para reembolsar a minha vela acesa. E fui embora com a consciência pesada.

Logo depois da apresentação de inglês ficou combinado que almoçaríamos em família no restaurante, o que seria ótimo porque assim eu poderia pagar o meu débito. Como era caminho, pedi para o meu marido de parármos e de me dar dois euros para resolver o problema da minha vela. Ele catou todas as moedinhas que tinha na carteira, me olhou torto e foi colocando as peças na minha mão. Peguei apressada para subir as escadas da basílica e ele disse para esperar porque o valor não estava completo, e continuou procurando os centavinhos que faltavam. Eu fiquei rezando para ele ter o suficiente, a conta tinha que ser exata. No final das contas até sobrou uns dez centavos. Então lá fomos nós três. Combinei com o meu filho que pagaríamos pela vela colocando as moedas no cofrinho da igreja mas que não acenderíamos nenhuma porque eu já tinha acendido uma antes sem pagar. Paciência, ele ficou meio desiludido. Subimos os degraus e ao empurrar a grande porta de madeira da igreja constatamos que ela estava fechada. "Bem feito!"- pensei, assim eu aprendo a ser menos impulsiva e a não fazer coisa errada. Imagina, roubar vela na igreja! Agora eu estava perdida, teria que vir a Nice milhões de vezes para tentar achar aberta essa igreja que não abre nunca. Eu iria passar mais uns oito anos, no mínimo, para pagar a minha promessa. Era mais fácil ter esperado para acender a minha vela na igrejinha perto de casa e pronto. Agora eu iria ter que pagar os meus pecados!

Resolvi ler os horários de abertura e para a nossa sorte daria para passarmos ainda hoje às três horas. Assim foi. E ela estava aberta! Recontamos bem o valor e meu filho colocou as moedinhas na abertura do cofre paroquial. Fomos até onde ela estava acesa e mostrei qual delas era a minha vela. Até suspirei! Rezei denovo e agradeci mais um pouco, Deus me perdoe.

 

Nice, junho 2013.

 

Topo da Pagina topo da páginaO problema do Futebol Brasileiro

Os franceses gostam muito dos brasileiros. Eles usam sandália havaiana e adoram acessórios brasileiros. Quando meu filho tinha três aninhos, ele ganhou da avó brasileira um casaquinho do Brasil muito lindo. Na época pedi que fosse bem maior quando ela perguntou que tamanho comprar, e para durar muito pedi que comprasse de seis anos.

Foram anos dobrando as mangas e sempre tivemos muito ciúmes dessa peça única do guarda-roupa dele. Usamos com cuidado. Mas ele está com a idade da etiqueta, o blusão está no toco, quase não dá para dobrar o braço. Então é hora de usá-lo até mesmo para ir para a escola.

De manhã cedo, tive a brilhante idéia de propor ao meu filho que já que ele iria com o casaquinho porque não colocar também a camisa de futebol número 8 que combina, que comprei quando estivemos em Santos. Ele me respondeu com um vibrante "Ué!!!". Assim foi. Calça da adidas preta, blusa do Brasil amarela canário, jaquetinha do Brasil azul e boné preto e amarelinho. "Nossa, Alexandre, os seus amigos vão reparar e dizer que demais! Ninguém tem igual!" - falei. Ele saiu todo lindo com aqueles olhinhos que brilham e entreguei ele todo contentão na porta da escola. "Passe um bom dia, filho. Te amo." - disse.

O dia foi quente, o verão este ano demorou para começar mas aparentemente a temperatura hoje estaria de acordo com a estação. Às seis da tarde lá fui eu buscar meu pequeninho na escola. Trocamos beijinhos carinhosos mas ele me olhou com uma carinha meia mucha. "O que foi, filho?" - eu perguntei. E fiquei sem resposta. "Teve um bom dia?"- perguntei. "'É!" - ele me respondeu. Ele e a classe dele toda aprenderam a ler este ano, e o ritmo escolar não foi fácil. Chegamos ao final do ano, que aqui é em julho. Deve ser o cansaço a razão dessas frases tão curtas dele hoje, pensei. "Tira o casaco, filho. Está quente." - eu disse. Ele me respondeu que preferia ficar com ele e respeitei porque quando ele está cansado é melhor nem discutir. Fomos subindo as quatrocentas escadas que levam da escola até a rua de cima e depois continuamos toda a subida inclinada da montanha que leva até a nossa casa, situada no alto de uma vila medieval. "Mãe, tô com sede."- ele disse. Paramos e peguei a água que estava guardada na lancheirinha dele, e entreguei a garrafinha para ele beber. "Tira o casaco, filho. Está quente." - repeti, vendo que ele transpirava e que gotinhas escorriam da testa dele através do boné. Ele só me olhou e continuou bebendo a água. Ele me devolveu a garrafa quase vazia, recoloquei na sacola refratária e continuamos a nossa silenciosa caminhada.

Chegamos em casa e ele então tirou o tênis, o casaco e sentou no sofá com o comando da televisão na mão para colocar num canal com desenho animado. "E aí, filho, fez muito sucesso com a sua blusa do Brasil na escola? "- perguntei. "E não!"- ele respondeu e acrescentou: - "Os meninos ficaram me chamando de caca o tempo todo"... (caca em francês quer dizer cocô). Virei então ele de costas para ver o que estava escrito na camisa dele e leio " Kaká, 8"... puxa, eu não tinha atentado para esse detalhe. Realmente não vai dar para colocar mais esta blusa nele, principalmente agora que ele e os amiguinhos sabem ler, e que inclusive todos os franceses podem ler se quiserem. Kaká é um grande jogador, expliquei para o meu filho. Mas não adiantou nada. Com seis anos de idade você iria para a escola com cocô, pum ou meleca escrito nas suas costas?

 

Nice, julho 2013.

 

 

 

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